Por que recomendo o livro “A Elite do Atraso” a policiais



Acabei de ler, recentemente, o livro “A Elite do Atraso”, escrito pelo sociólogo Jessé Souza. Durante a leitura, pensava o tempo todo em como seria bom se outros policiais pudessem ler tal obra, o que me levou a escrever este texto, com o intuito de apresentar os motivos que me levam a fazer tal recomendação aos companheiros operadores de segurança pública.

Em primeiro lugar, vale elogiar o autor, que não tem hesitado em produzir interpretações que ajudam a compreender o Brasil contemporâneo, mesmo enfrentando os grandes clássicos da sociologia nacional. Seus livros (A Ralé Brasileira, A Radiografia do Golpe, A Elite do Atraso e a Classe Média no Espelho) alcançam o equilíbrio entre o bom conteúdo acadêmico e político e a linguagem fácil. Assim, suas ideias tornam-se acessíveis a muitos outros brasileiros além daqueles que conseguiram ingressar em uma universidade. É o caso de A Elite do Atraso, que passamos a comentar.

A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro - 9788556080424 ... 

No livro, o autor se propõe basicamente a duas tarefas. A primeira é a de criticar dois conceitos que estão presentes em diversas interpretações do Brasil: o de patrimonialismo e  o de populismo que, para o autor, compõem o culturalismo racista brasileiro. A segunda tarefa é, como em suas outras obras, a de oferecer uma interpretação alternativa da realidade. 

Para o sociólogo, o culturalismo racista acaba se tornando a explicação dominante sobre os motivos do Brasil ser como ele é atualmente. Jessé Souza identifica Sérgio Buarque Holanda, especialmente em seu clássico livro Raízes do Brasil, como o grande arauto do liberalismo conservador brasileiro, de cunho racista porque, entre outras coisas, oculta o grande problema histórico do país, que é a desigualdade social que remonta à escravidão. 

A característica de homem cordial, por exemplo, criada por Sérgio Buarque para designar a alma do brasileiro, seria como uma semente portuguesa que germinou e deu seus frutos por aqui desde o período colonial. Essa característica seria a responsável pela ação dos brasileiros sempre com base em emoções (ódio, amor, amizade etc.) e não na razão. Neste sentido, “o brasileiro” agiria com o coração (o termo cordial é oriundo do vocábulo cordis, em latim, cujo significado remete a cordas ou ao coração). Perceba o leitor que quando se fala “o brasileiro” não se faz uma distinção de classe ou raça. Fica parecendo, assim, que tanto os mais ricos do país quanto os mais pobres padecemos do mesmo mal e, por isso, estamos no mesmo barco. Nada mais falso que isso, não é mesmo? Pois bem, esse mesmo homem cordial é a origem, em nível individual, do patrimonialismo, noção usada para designar a forma pela qual aquele homem trataria a coisa pública como se fosse privada, não delimitando bem as fronteiras entre uma coisa e outra. Daí o problema central do conservadorismo ser supostamente a corrupção do Estado patrimonialista, explica Souza. 

O segundo conceito atacado por Jessé Souza é o de populismo. Esse conceito é produzido em complemento ao de patrimonialismo, pois tem como objetivo minar a autoestima dos mais pobres, fazendo com que os mesmos abracem a falsa causa do patrimonialismo em detrimento da melhoria da vida de sua classe social, como explica o autor: 

A noção de populismo, como mecanismo de deslegitimação dos interesses populares, sob a forma de uma reação liberal à entrada das massas trabalhadoras na política, tem aqui seu nascimento histórico. Como os interesses das massas são diferentes, a forma de deslegitimá-los é negar-lhe a racionalidade (SOUZA, 2019, p. 130). 

É nessa engenhosidade diabólica, que envolve a mídia, com sua exaltação a “heróis” do combate à corrupção, que parte da classe média e até mesmo algumas pessoas mais pobres passam a acreditar que o grande problema do Brasil é a corrupção daqueles que estão no Estado. Enquanto isso, os bancos alcançam lucros extraordinários, mesmo em momentos de crise financeira do povo, e as maiores empresas nacionais são dilapidadas até perderem o seu valor e serem vendidas a preço de banana. 

Esse ponto é que, para mim, toca muito em cada um dos profissionais de segurança pública. A maioria de nós veio de camadas pobres da população. E até hoje, com exceção de alguma categoria minoritária, chegamos, no máximo, à base da classe média. O cargo público, conquistado com esforço, foi a chance de ascensão social para muitos de nós e de nossas famílias. A honestidade é outro valor fundamental para nós, que trabalhamos para fazer cumprir as leis. Assim, fica parecendo impossível assumir outro discurso  que não aquele de combate à corrupção como único objetivo a ser alcançado pela política. Desta forma, alguns acabam sendo capturados por mitos ou supostos justiceiros que, obviamente, são falsos. 

O livro de Jessé Souza oferece, então, uma interpretação que é uma saída para esse dilema. Ele aponta a necessidade de conhecermos de onde viemos. A origem indígena, negra e mestiça que constitui a classe trabalhadora brasileira, sempre explorada e desprezada. Mostra que a grande corrupção a ser combatida é, por exemplo, causada pelas grandes fortunas sonegadoras de tributos que, por sua vez, poderiam ser utilizados para melhorar a vida dos mais pobres. Tais fortunas estão bem longe do serviço público, ainda que, sem dúvida, haja também corrupção entre parlamentares, magistrados, governantes e outros atores públicos das cúpulas estatais. 

Finalizando sua obra, Souza oferece uma imagem que todos os policiais entendem. Para ele, os políticos corruptos são apenas como aviõezinhos de drogas, necessários, mas substituíveis pelo grande tráfico, representando os interesses desonestos das grande elites empresariais e bancárias que operam historicamente contra as reais necessidades do povo trabalhador brasileiro, muitas vezes utilizando teorias e explicações falsas. Essa seria a verdadeira elite corrupta, que provoca o atraso do Brasil.

REFERÊNCIA:
SOUSA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019.

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